O amigo
fevereiro 9, 2010
Veio hoje a minha casa um amigo. Uma amizade que começou há tantos anos que não sabemos muito bem porque, e da mesma forma não sabemos exatamente o motivo pelo qual nos esforçamos tanto para mantê-la respirando. Digo isso porque em algum ponto das nossas gigantescas vidas curtas, nossos caminhos, que nunca foram lá muito trançados, se distanciaram de maneira drástica. Sem rodeios eu diria: sou o que ele despreza e ele é o que eu luto contra. Mas sem rodeios o que seria do conteúdo? Disse para ela (outra pessoa) que o que importa é o resto e não o todo, acho que ela não concordou, mas já que eu sempre vejo um pouco de razão em tudo que ela fala, conto com a possibilidade de receber um privilégio parecido.
Voltando ao amigo. Combinamos que ele chegaria por volta das oito horas da noite. Em comum temos o fato de que acordamos para lá da “hora do almoço”, portanto esse horário corresponderia a um lanche da tarde, e não a um jantar como se poderia imaginar. Pontualmente às oito horas ele me gritava do portão e meu cachorro já anunciava com latidos desconfiados sua chegada. Sua pontualidade, que não era costumeira, me pegou de surpresa, corri para o quarto e vesti uma camisa qualquer, agora penso que não me custaria mais de alguns segundos escolher uma camisa mais bonita. Penso também que já poderia ter trocado por uma outra, mais fresca e mais confortável, mas talvez só possa faze-lo depois do ponto final. Pronto.
Voltando ao amigo. Depois dos comprimentos e da água que se deve oferecer a qualquer visita, sentamo-nos na varanda. Os primeiros assuntos devem ser sempre superficiais, devem ser uma preparação para o inesperado, para o que está por vir, devem percorrer coisas como a minha saúde fraca, a viajem que ele logo fará de volta para São Paulo, até que de repente uma palavra ou uma virgula qualquer nos faz mergulhar nas profundezas um do outro, ou, no nosso caso, cada um na própria, e assim o fizemos. Por conta de um céu repleto de estrelas e sem uma nuvem sequer, decidimos pegar, no segundo andar, o telescópio. Observar as estrelas e o que supúnhamos serem planetas, fez surgir um assunto no mínimo previsível, criaturas extraterrestres. Ele acredita e eu não. Depois de me contar alguns casos de comprovações de vida fora da terra, que eu julguei bastante questionáveis, decidi contar a ele algo que, até então, não havia tido coragem de contar para mais ninguém: minha antiga fixação pelo Pé Grande. Eu andava triste na época, por qualquer motivo que, se não valia a pena ficar triste por ele, certamente não vale a pena contar, mas por conta dessa fragilidade estava aceitando com um carinho especial qualquer mistério que me ocupasse o pensamento. Foi quando, pela força invencível do acaso, comecei a assistir um documentário sobre o Pé Grande, chamava-se Sasquatch. Os vídeos e o depoimento da Dra. Jane Goodall me convenceram; passei as semanas que se seguiram lendo tudo que podia sobre o monstro e procurando mais evidencias, juntando os pontos em comum nas histórias, olhando nos mapas os lugares onde ele havia sido flagrado por alguém. Com o tempo a tristeza acabou por escorrer toda em suor, então me dei conta de que, a não ser que estivesse em um avião que caísse numa floresta inabitada ao norte do Canadá, não fazia o menor sentido me preocupar com isso.
Voltando ao amigo. Comemos pastel enquanto discutíamos Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister e se a fé em Deus pode ser usada como argumento em uma discussão teórica. Ele acredita e eu não. Ficamos ali, sentados à mesa, durante algumas horas, encharcados de profundezas e, vez ou outra nos secando com superficialidades só para voltarmos ao mergulho e ir mais fundo. Quando percebemos já era tarde, ele precisava ir e foi.
Voltando a amizade. Percebi, não antes que o sangue que ele havia esquentado esfriasse, o motivo pelo qual não deixamos que nossos princípios sufoquem nossa amizade: porque somos espelho um do outro, meu braço direito é o esquerdo dele. Eu acredito e ele não.
14 de janeiro .2
janeiro 13, 2010
Voltei por uns dias à casa dos meus pais. Eles não estão. Por isso percebo melhor a quantidade excessiva de fotografias deles. Devem existir também centenas de fotografias minhas espalhadas pela casa, mas ainda estou trabalhando num jeito de não estar presente quando estou aqui.
Interessam-me particularmente uma fotografia do aniversário de 15 anos da minha mãe e uma fotografia do meu pai com uma cabeleira negra e alguns amigos em um acampamento nalgum lugar do nordeste.
No tempo preso dentro dos porta-retratos os dois ainda não se conheciam. Parecem felizes. Eu não era sequer hipótese nesse mundo que ora encaro ao passar pelo corredor. Sequer hipótese.
Minha mãe espera ansiosa pela valsa, pela meia-noite. Meu pai não espera por nada, talvez pela rede onde mais tarde descansará do seu woodstock nordestino.
Eu continuo parado, andando de um lado para o outro, pelo corredor, nessa baldeação eterna com destino a uma periferia que fica no centro, que fica dentro.
Agora sou somente hipótese.
14 de janeiro
janeiro 12, 2010
1.
Felipe V dá ao filho o trono
Eu tenho algum desgosto
Sou o oposto do plano
Um mapa de ferrugem, preguiça
E sono
2.
Inglaterra e Espanha lutam contra Napoleão
Eu não
Deixo vir tomar de mim
Terra e coração
3.
Estréia Tosca de Puccini
Eu busco pelo caminho que antes fiz
As partes que deixei cair
Enquanto sonhava o que esperava ser
Nem Cavaradossi
Nem Spoletta
Nada em mim
4.
O telefone é patenteado
Eu espero tocar, nervoso
Toca
Não sei sorrir (nunca soube)
É engano
Sou o oposto do plano
5.
Nascem Catarina de Áustria, Soderbergh e LL Cool J
Morre Sergei, um ótimo engenheiro de foguetes
Nasço
Nasço eu
O oposto dos planos que faço.
Dama
dezembro 27, 2009
Vinicius entrou no salão. No salão comprido e vazio apenas Oscar sentado em uma mesa ao fundo, próxima à janela, por onde adentravam os últimos raios de sol do dia – que acabavam por denunciar a poeira que subia do chão.
Oscar se levantou e se apresentou com formalidade. Vinicius riu. Os dois se sentaram. De uma porta situada na outra extremidade do salão – que nenhum dos dois havia percebido até então – entrou o mordomo que, chamando-lhes pelo sobrenome, ofereceu-lhes algo para beber. “Chá” – disse Oscar, e completou “Por favor.”. Vinicius riu outra vez e disse “Uísque, sem gelo, camarada!”.
Oscar questionou o local combinado, Vinicius disse não fazer idéia nem sequer de como havia chegado àquele lugar. Sentados um de frente para o outro – Oscar de costas para a janela; o que, enquanto ainda houvessem raios de sol, lhe proporcionaria uma iluminação bastante privilegiada, era quase apenas silhueta, ao contrário de Vinicius, cujo os poros eram evidenciados pela luz ainda cortante do fim da tarde – trocavam olhares desconfiados.
O mordomo voltou com as bebidas. Os dois agradeceram, cada um a seu modo. Vinicius tomou a iniciativa e disse: “Vamos começar logo!”.
Oscar concordou com a cabeça e abriu o tabuleiro. Vinicius, depois de uma golada no copo de uísque, foi logo ajeitando suas peças, ele escolheu as pretas.
Tentarei descrever aqui da maneira mais fiel que puder a partida de dama que se seguiu:
Vinicius fez a primeira jogada, agressivamente pulando duas casas: “Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.”.
Oscar, revidando a altura: “Um homem pode viver feliz com qualquer mulher desde que não a ame.”.
Vinicius, que não esperava o golpe: “Por mais longa que seja a caminhada o mais importante é dar o primeiro passo.”.
Oscar, aproveitando a surpresa do oponente para comer-lhe a primeira peça: “A ambição é o último recurso do fracassado.”.
Vinicius, sem recuar, percebeu um descuido e comeu-lhe também uma peça: “Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”.
Oscar sorriu pela primeira vez ao perceber a ingenuidade do oposto, e, tirando-lhe duas peças em uma única e bela jogada: “Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência.”.
Após o movimento certeiro de Oscar a tensão entre os dois tornou-se latente.
Vinicius, comovido pela raiva e pelos goles de uísque, arriscou: “Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu…”.
Oscar demorou alguns segundos a mais para entender a jogada e reagiu com certo receio: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”.
A partida se estendeu por dias, de maneira que eu, o dono da casa, perdi algumas jogadas, devido ao sono, que vez ou outra me acometia, e aos afazeres domésticos. Lembro-me, porém, de algumas belas jogadas:
“Perversidade é um mito inventado por gente boa para explicar o que os outros têm de curiosamente atrativo.”.
“O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado.”.
“O trabalho é a praga das classes bebedoras.”.
“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”.
“Muita gente estraga a vida com um doentio e exagerado altruísmo.”.
Por fim, restaram no tabuleiro apenas três damas, duas damas de Vinicius e uma dama de Oscar. Ambos exauridos da interminável partida, jogavam como se lhes valesse a própria existência, e de fato valia.
Vinicius atacou: “Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.”.
Oscar vendo a fragilidade evidente de um poeta apaixonado, tomou-lhe uma das damas numa jogada simples, mas genial: “A arte, felizmente, ainda não soube encobrir a verdade.”.
Pronto, estavam os dois, como destarte, frente a frente, empatados, e todo o cansaço parecia não mais incomodá-los naquele exato momento. O que aconteceu então, nem mesmo eu, espectador, pude prever. De repente deram-se conta de que Oscar estava jogando com as peças pretas e Vinicius com as brancas. “Como? Desde quando?”, se perguntavam. Vinicius ria enquanto derramava goela abaixo o derradeiro gole de uísque, Oscar suspeitava de trapaça.
Preferia que tivessem se estapeado disputando a vitória, mas, fracos frente ao dilema, jogaram-se juntos pela janela – que quebrou deixando alguns cacos pelo lado de dentro – e nunca mais apareceram por aqui.
Melhor assim. Aqui em casa poesia é uma guerra.
para Charles Mingus
dezembro 21, 2009
Olá,
não costumo fazer isso, mas hoje cedo fui ‘arrebatado’ por uma onda. Como tenho poucos leitores, e conheço um pouquinho cada um de(les) vocês, e os tenho apreço, quero dividir a experiência. Música e poesia. Mingus e Garcia. Juntos, se for possível, depois separados, invertidos…
uma duas três quatro cinco seis sete
uma pessoa
não é só
magnética dispersão
fusão dilacerada feito folhetim
fortim inexpugnável
pungente desamor
atração por leões e canários –
uma pessoa
se transformada em peixe
migra para paragens claras
duas pessoas não são só
magnetismos
dispersões fusões efusões
e/ou corações dilacerados
folhetins agudos
fortins inexpugnáveis
desamores pungentes
atrações por leões e canários
desamor aos florentinos
filatelias desfalcadas –
duas pessoas
se transformadas em peixes
se dispersam
três pessoas não são apenas triângulo amoroso
expropriado
num imenso moinho com rodas e magnetismos
dispersões fusões efusões
corações dilacerados quando o dois quando o três
quando o um –
três pessoas
se transformadas em peixes
se arrebatam no nado
quatro pessoas não são só revelações anunciadas
são mais
são desesperadas
nas traições e nos magnetismos
nos corações plurais
nos folhetins pálidos
nos amores diversificados –
quatro pessoas
se transformadas em peixes
se dilaceram
cinco pessoas
divertidas e amáveis
são mais e muito mais
que múltiplos magnetismos desencontrados –
cinco pessoas
se peixes
se transformam em cardume
seis pessoas se diluem
as rodas desaparecem
os corações amortecem –
se transformadas em peixes
o mar as encobre
se sete pessoas o mistério se renova:
os candelabros se acendem
os corações incendeiam
as feras dançam
as horas se desesperam
&
nem Mingus as arrebata
mas
se em peixes transformadas
arrebatam o mar
Pedro Garcia
Quebra-cabeças
dezembro 14, 2009
Meu relógio uso no braço direito
dezembro 3, 2009
Eu tenho um relógio que é quase igual a todos os outros relógios do mundo. Tem números escritos. Tem um ponteiro baixinho e “parrudo” que caminha pesado, sério, e marca, ferino, com a sobrancelha franzida e uma violência discreta, as horas que passam. Tem também um outro ponteiro alto, magro, elegante e com um certo ar de superioridade, alguma coisa meio blasé de quem se sente a parte mais importante do todo; no seu ritmo, marca, preciso e sem dó, os minutos que passam. Tem ainda um ponteiro raquítico, coitado, quase some no meio daquela confusão esquizofrênica de números e ponteiros; confusão de tempos em circulo, que dão volta, mas não voltam. Ele não entende quase nada, corre, tenta se esconder. Apressado e com medo, não percebe que é ele quem manda naquela bagunça, e marca, com um toque rápido e ingênuo – que às vezes, e por um medo parecido, também peco por mal percebê-lo– , os segundos que passam. A diferença do meu relógio é que ele é invisível e anda de trás pra frente, numa contagem regressiva.
O cara do amendoim
novembro 26, 2009
A gente senta na mesa. A mesa é de plástico e vermelha. Na mesa estampada uma cerveja. Pedimos cerveja e três copos. Logo rimos daquelas coisas que não riríamos. Eu acendo um cigarro e deixo sobre a mesa o maço. Vocês dois me pedem um cigarro, eu dou. Pedimos outra.
Na terceira ele nos olha lá de longe. Feito um bicho esperto que voa, passa uma, duas, três vezes numa boa, então coloca sobre a mesa, ao lado do maço e da cerveja, um papel recortado, quadrado, e por cima do papel um punhado de amendoim.
A gente pede a quarta e devora, um por um, os amendoins. Não demora ele percebe, vem devagar, reabastece o pedacinho de papel. Alguém fala de um filme, outra cerveja vem gelada; o filme é bom pra um, ruim pra outro, dois discutem, citam, inventam, ofendem; eu quieto, que não entendo de cinema, levanto com uma mão o papelzinho, com a outra faço uma concha que espera ansiosa por todo amendoim e o sal que é resto no papel. Levo a mão então à boca e mastigo rápido, antes que vocês percebam que todo filme é um saco.
Perdemos por fim a conta das garrafas sobre a mesa, ele vem com um passo novo e um sorriso que cobre o rosto; enche de novo o quadrado, tira da bolsa – ‘quentinho’, ele jura – três cones de papel dobrado recheados de amendoins. ‘3 por 5!’, ele nos diz num canto; eu pergunto ‘3 por quanto?!’. Ele negocia, muda, na rua 5 vira 2, porque o real não é real. A gente se olha, sente o que? Vergonha (?) de ter comido e engolido sem demora todo aquele amendoim; e agora que ele vem buscar a recompensa, a gente ainda pensa em dispensar? Não, inclina a cabeça levemente para o lado enquanto tira do bolso moedas. Paga e pega. Ele agradece, diz que Deus vai nos abençoar, nenhum de nós sente a bênção e ele vai contente. Já enjoados daquele amendoim do quadrado, a gente come, do cone, contrariado aquilo tudo que comprou. Quem ganhou?
Do seu lado, moça, sou feito o cara do amendoim. Sacou a metáfora?
O homem (ou)viu a mulher
novembro 21, 2009
Baseado na obra de Marc Chagall “La Bible” – mais precisamente na sua brilhante interpretação de Sansão.
“Que coisa há mais doce do que o mel? E que coisa há mais forte do que o leão?.” Juízes 18.
Destarte eu, mais nada. Não nasci com especial talento para perceber nas coisas ordinárias, beleza. Aqui, onde as coisas belas são ordinárias, peguei no tranco. (É preciso que faça aqui uma breve pausa para explicar ‘coisas belas’: belo é o que convém; por este motivo, forçosamente me acostumei a não acreditar nas coisas belas, mas, por uma razão que desconheço, não desconfio das coisas feias).
Feito xadrez, por força de uma jogada apressada, saí de casa aquela noite em busca de um mundo de fotografia em preto e branco – onde luz é branco, falta de luz é preto e quem não é diabo é santo. Munido de considerações bem elaboradas que, pelo costume do plagio, já não as sabia minhas ou de um fulano qualquer da tv. Meu primeiro combatente julgou típica a minha falta de fé, já que, nascido na primeira quinzena de janeiro, era capricorniano. A segunda jurou que lembraria o nome do autor do livro que dizia exatamente o contrário do que eu havia dito. O terceiro se irritou e disse que não trocaria mais duas palavras com alguém que não era de “esquerda”. Outros que vieram, riram, não me deram atenção, revoltaram-se, concordaram, se deixaram convencer. Eu flutuava, pisava nas palavras que saiam da minha boca. Ganhei todas as batalhas travadas com voz e fumaça.
Só é real o que se imagina. Já era tarde quando ela chegou atrasada. Beijava um por um enquanto se desculpava pela demora e explicava os motivos desinteressantes que a prenderam nalgum lugar tedioso e pouco arejado. Logo apresentaram-na a mim, com pouco senão referências de alguma festa da qual não recordava ter participado. Ela se sentou num lugar da mesa onde podia ver e escutar a todos – por motivo que só agora se torna claro, esse lugar era distante do meu. Respondia a maioria das perguntas com gestos e sorrisos, e o fazia com uma agilidade tão impressionante que, amiúde, parecia responder a duas ou três perguntas com um só gesto.
Não desconfio das coisas feias porque só podem esconder beleza. Ela contava algumas histórias, mas sempre se deixava ser interrompida pelas risadas mais altas ou pelos copos que se quebravam. Todos os finais se desenrolavam em tramas fantásticas na minha cabeça. Sua cortesia sabiamente distribuída entre todos, que antes me irritara, assumia agora algo de desviante. Concentrei meus esforços em compreender seus gestos, tanto que os novos desafiantes que me apareceram tiveram que se contentar com respostas pouco criativas e sem referencias teóricas. Quem é essa que tira de mim a espada? Tão indefeso fiquei. Ela já havia me percebido, me notado; respondia a todas as minhas perguntas silenciosas com as respostas que dava, com aparente superficialidade, aos outros. Quis conhece-la antes que ela me desvendasse inteiro. Não, já estava nu, jogado na cama, coberto de suor e perfume.
Envolvido, não pude prever que, com o peão sorrateiro, ela estava a ponto de subir na mesa e gritar ‘xeque mate!’, depois, sádica, sussurrar no meu ouvido encostando levemente a boca ‘xeque mate.’. Olhou pela primeira vez diretamente pra mim, disse meu nome seguido de interrogação. Respondi positivamente. Ela sorriu um sorriso diferente de todos os outros que até então pude conhecer e consumir-me deles, disse: ‘Li seu blog esses dias, não me lembro quem me indicou. Achei bonitinhos os poeminhas.’. Quem é essa que, cruel, me fere com a espada que tirou das minhas mãos? Pronto. Desabo. Esqueci do cinza entre o branco e o preto, esqueci do homem entre o santo e o diabo, da dúvida, do incerto. Esqueci-me do resto. Todos os oponentes que eu já havia derrotado, ressuscitados pelas palavras da feiticeira, voltaram-se contra mim com olhos de um deboche pontiagudo. ‘Poema?’ diziam todos os olhares. As palavras nas quais sustentei minha leveza para poder flutuar, preparavam em cinco letras uma poesia “concreta”: Forca!
A condição de toda fortaleza é ser, necessariamente, fraqueza. Cortaram-me aos pedaços. Separaram-me por versos. Cada um levou de troféu uma parte do corpo morto do poeta.
Ela levou a língua.
“Do comedor saiu comida, e do forte saiu doçura. E em três dias não puderam decifrar o enigma” Juízes, 14
Da janela vejo a Maré
setembro 30, 2009
Vejo.
Do quinto andar do prédio
tracejo,
pelas ruelas onde o tédio é
desejo,
um caminho de caranguejo
a Maré.
Longe,
sei do que ouço, do susto
do estrondo, da patrulha,
das armaduras, dos saldos e dos rescaldos.
O que não escuto,
escondido dentro do grito de quem se sabe agulha
quando fagulha faz o tiro,
um suspiro.
No meio
entre o que vejo e o que desejo,
o que sinto.
E a brisa leve que desabafa a alma,
como um instinto, num instante extinto
a calma.
Daqui
a Maré é um mar
vermelho tijolo,
meu consolo.

