Meu primo

março 23, 2011

Certa vez

me perguntou um primo:

sou seu sobrinho?

 

Eu me espantei

disse:

Não, primo.

 

Ele pôs a mão sobre a cabeça

coçou com delicadeza

me encarou penetrante:

sou seu filho?

 

Franzi os olhos

respondi ríspido:

Não, primo.

 

retrucou:

Sou seu vizinho?

repliquei:

Não, primo.

 

Seu cachorro?

Não, primo.

Sua Mulher?

Não, primo.

Seu bem-me-quer? Seu guardião?

Não, Não, Não, primo.

 

Até que me irritei e pensei

cá comigo

que na próxima pergunta

fosse lá o que ele perguntasse

eu diria que sim

 

Sou seu primo?

 

 

A minha pomba

dezembro 27, 2010

O ritual é simples. Eu chego por volta das nove e antes de tirar a mochila eu arregaço as janelas. A casa começa a fazer parte do ciclo do vento, do circuito dos ares. Um banho, um escovar os dentes, um vestir o short, e depois paro, sentado no chão, encostado na cama.

Hoje, por outro lado, terei um azar. Um revés por permitir que o ap se integre com o mundo através da janela. Hoje vai entrar pela janela uma pomba. Eu não vou saber o que fazer e vou tentar colocar ela pra fora de algum jeito.

Estaremos os dois ali, morrendo de medo um do outro, só porque ela não me entende e eu não posso entendê-la. Nós queremos a mesma coisa. Ela quer ir, eu quero deixá-la ir.

Mas ela não vai conseguir achar o caminho, não conseguirá sequer perceber que o trajeto que a trouxe para dentro é o mesmo que vai libertá-la. Eu, se tentar ajudar, não saberei ter delicadeza e acabarei fazendo com que a coitada se desespere num bater de asas descontrolado.

A coisa caminha mal, é perceptível que a cada tentativa nós nos afastamos mais um do outro.

“Pomba,
que faz parte do mundo
parte do mundo que eu quis deixar entrar
que o acaso disfarçado de vento
achou que seria belo o nosso encontro
mas nós na inocência
recalcados com surpresas
de sensibilidade prejudicada
deixamos o pior acontecer.”
O que vai acontecer no fim da história vai ser terrível. Eu vou ter uma ideia péssima, mas com a melhor das intenções, como toda ideia péssima costuma ser. Eu vou até a cozinha e aí vou pegar a vassoura para ver se assim consigo empurrá-la.

Na primeira tentativa ela escorrega. Na segunda escorrego eu. Na terceira, com os braços já cansados, eu perco o controle da vassoura e a esmago. Ela ainda vai respirar e tentar se mover por alguns minutos. Mas já estará feito.

Hoje eu não vou conseguir dormir e farei um pequeno artesanato com as penas dela.

O verão

novembro 24, 2010

Quem em plena primavera

dorme em meio a mel e lentidão

que acorde com um um beijo do verão

O verão é um urso faminto

e beijoqueiro.

(escrito brilhantemente por Renan Reis e Francisco Ferraz às 5 da manhã de uma terça quente de novembro, que logo vira quarta e nos devora)

Destemidos meninos

Que teimam agressivos

Inventam destinos

Mas sucumbem todos ao mesmo, e temido, destino

Meninos de olhos tortos

Boca torta

Nariz torto

Olhos turvos

Voz rouca

Meninos assassinos

Assassinos de si

Num suicídio novo, recém descoberto por nós

Meninos assassinos de si, meninos

Melódicos e rítmicos

Tímidos

Lindos,

Uma beleza outra, ainda não descoberta por nós

Dia desses, meninos

Um de vocês assaltou meu carro

Levou meu cd das obras mais importantes do Piazzolla

Espero que esteja ouvindo

Así, medio bailando y medio volando

Menino.

Até que um dia

setembro 27, 2010

Meus pais tinham um grupo de oração. Eu ia com eles até completar uns seis anos, ou mais. Durante as preces e rezas ele ficava ali no canto. No fim meu pai pegava e tocava algumas músicas, todas com os mesmos três acordes que me soavam construções harmônicas perfeitas. Todos cantavam, eu acordava nessa hora.

Quando não havia ninguém por perto, eu pegava para batucar, e batucava minhas melodias pouco sonoras e bastante emocionadas. Até que um dia de tanto batucar eu quebrei o violão.

A menina mal me conhecia, fazia parte de um lugar que eu freqüentava sem me lembrar o motivo. Enquanto ela passava e distribuía um sorriso falso que só enganava a ela e aos meninos mais tímidos, eu ficava no canto.

Um dia, numa curva maliciosa com aqueles que andam distraídos, topamos um com o outro. Ela elogiou minha barba, fingiu gostar de umas poesias que eu levava guardadas na mochila para enrolar menina boba e ficou sorrindo. Eu dormia. Algum tempo passou, ela disse, falou, contou, tagarelou “maporção” de coisas. Aí, creio eu que de forma despropositada, ela inventou de parar de sorrir. Eu acordei nessa hora. Cantei algumas canções e nada, nenhum sorrisinho falso. Até que um dia de tanto batucar eu quebrei a menina.

São três, e esse talvez possa parecer um número pequeno, mas dentro de um quarto, três se multiplica, se expande, se transforma em inumeráveis mundos possíveis.

Não foi correto, mas com o tempo e a convivência, era mesmo inevitável que eu, dono de um mundo tão pequeno e limitado, fosse me apropriando um pouco de cada um desses mundos. Fui ladrão das ideias e das formas matematicamente perfeitas que meus irmãos inventaram para viver.

Os três, e cada um individualmente, me ensinaram mais da metade do pouco que sei. E ao falar deles sinto a leveza de saber que tudo só pode soar como exagero, mas sem ser exagerado, e mesmo o exagero parece moderado.

Ninguém nunca vai conhece-los como eu, disso sinto um orgulho indescritível. Sinto-me ora pai, ora filho, e tantas vezes colecionador das suas manias.

Antes de começar o texto pensei em descrever alguns casos que vivemos dentro do quarto apertado no apartamento, onde se arranjavam dois beliches de metal, no canto, formando um L. Mas hoje me permito ser egoísta com as histórias, que não tem nada de secretas, mas que em segredo ganham vida.

E aí? Aí que num certo momento da vida o quarto aperta demais, fica pequeno pra tantos mundos. Aos poucos o mundo de cada um ganha chão, ganha outros corações, e foge pra longe. Cada um para o seu próprio quarto, com a sua própria cama, onde ninguém dorme em cima, nem do lado… uma imensidão de espaços vazios, mas mesmo assim tudo parece mais apertado agora. É assim que é a vida, não me oponho ao movimento natural das coisas. A maior parte do tempo, juro, me alegro. Acontece só que, vez ou outra, eu percebo que longe deles eu não passo de 25% de um todo.

E a vontade que me dá é só de ligar pra cada um deles, e dizer: “Tu sabe que é nós, né?” 

Fazia tempo que já lia poesia

Mas nunca tola em se arriscar a ter amor

E a menina que fingia que sorria

Achava tudo, tudo, tudo um horror

.

Se fosse fácil eu acho bem que ela fugia

E ia logo se casar com algum doutor

Mas no nordeste sem sertão que ela vivia

Seca não tinha, mas tinha dor

.

Ainda jovem desistiu de ter coragem

Fez do medo, logo cedo, um bom amigo

E aprendeu como usar a maquilagem

Para esquivar qualquer sinal de algum perigo

.

Os meninos que a menina conheceu

Achavam charme os mistérios da menina

Que não dançava nem quando tocava Alceu

E que nenhum sol fez menos albina

.

Mas com o tempo e os invernos que passavam

O sabor que tem a vida azedava

E enquanto todos se afastavam

Ela andava

.

Acostumou a conversar com a solidão

Assim entendeu quase tudo sobre a vida

E se a seca era problema no sertão

Aqui a seca era querida.

Adeus, mas como?

agosto 18, 2010

Eu acho bastante possível que as pessoas olhem para mim hoje e enxerguem apenas um monte de fumaça. É assim que eu me sinto, é isso que meu cinzeiro me diz, é esse o cheiro que eu sinto na minha blusa preta da Hering, gola V, com furos debaixo dos braços.

Eu acho mesmo bastante compreensível que ela e todos eles queiram evitar um monte de fumaça resmungão.

Mas veja que surpresa, eu olhei para frente, e lá longe vi a mim mesmo. Rodeado de gente humana. Cheguei perto pra ouvir o que eu mesmo dizia, mas não entendia nada, meu vocabulário não era suficiente. Ele, que era eu, se vestia bem e sorria. E por qual motivo essa visão não me assombrou?

Eu e meu corpo já não somos os companheiros de outrora. Enquanto ele, que era eu, estava sentado na sala da universidade, eu, que era ele, pensava em algum “mudo e invisível amor”. Enquanto ele enviava currículos e aprimorava habilidades, eu me aprimorava em ser um bom paquerador de mulheres, um bom “amigo de copo”. Enquanto ele corria na praia, eu comia chocolate debaixo do cobertor, e engordava.

Eu acho que me orgulho dele, mas depois de tantos anos sinto que não temos mais assunto nenhum.

Vai corpo, vive a tua vida sem minha alegria, que eu tento viver a minha sem seu dinheiro. Mas te aviso já, não se abuse em ser feliz sem mim, te busco e dou-lhe uma surra.

Projeto Antenor – www.twitter.com/projetoantenor e www.projetoantenor.wordpress.com

Parte 2 – Os Outros

julho 28, 2010

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