De Improviso

novembro 16, 2008

Menino de rua

não sabe, ou às vezes não sabe

Que é dura também nossa vida

Da pena que dá e que aperta

se passa um menino de rua

Que pode sentir toda a raiva

culpar-me e culpar toda a gente

que passa e que vê o menino

É dura a inveja da raiva

que nos é proibida sofrer

e esse monte de coisa que explode

mas que não se deixa escorrer

por vergonha ou pudor

ninguém sabe

ou por algum respeito ao menino, ou à comida.

O Paulo

novembro 8, 2008

Três e meia da manha, ou algo muito próximo disso, eu recebi a ligação, uma das mais tristes que já recebi. O professor paulo (e “O” poderia estar em qualquer parte da frase que ainda assim seria maiusculo) morreu agora a pouco. Não queria rebuscar meu texto, nem encontrar palavras perfeitas para falar dele, prefiro falar dele com a pureza dessa tristeza que agora me toma por completo.

Assim que recebi a notícia me vieram a cabeça as suas duas filhas, e a professora Glaucia sua mulher. Desliguei o telefone e fiquei algum tempo tentando me lembrar dele, mas não vinham as lembranças, só as meninas do Paulo. Obviamente não consegui dormir, e quando o dia estava amanhecendo me lembrei do nosso último encontro, um esbarrão na rua. E então esse encontro me veio nítido, ele estava com uma jaqueta preta, eu tenho certeza. Me perguntou sobre como ia a UFF, respondi rápido como sempre respondo sobre esse assunto. Mas não devia, não a ele, sinto tanto não ter-lhe sido mais grato nessa resposta, logo a ele, a quem sem nenhuma dúvida devo a miha gratidão.

Esse encontro se repetiu pelo resto do dia. No ônibus, em que subia apressado esperando algum consolo dos que também sofriam por ele, ou melhor pela falta dele, consegui mais uma lembrança. Ouvi bem claro os gritos implorando para que ficassemos quietos, só um segundo, só para ele acabar de explicar sobre a guerra fria… a guerra fria… na tarde, quase noite, das quartas. Ele ficava puto com a gente, não tinha muito jeito mesmo.

Depois que cheguei a Petrópolis as lembranças começaram a vir mais depressa. De uma só vez me lembrei que ele gostava do Capital Inicial, e implicava todos os dias comigo porque eu gostava de Beatles. Ele gostava de Capital, e tocava no violão sentado na mesa. Me lembrei da vez que a gente combinou de tocarmos uma música do Zeca Baleiro na aula, eu tocava e ele cantava, e a turma aplaudia. Lembrei das dezenas de vezes que ouvi sobre sua viagem à Cuba, do taxista que eles conheceram lá. De Cuba, tantas vezes. Do sonho socialista, que me parecia tão incoerente às vezes, assim como gostar de Capital, que no fundo eram dois gostos bem parecidos, mas era ele, era um jeito de ser bom. Boa gente, que nunca se impos sobre as cabecinhas frageis que tinha ali na sua frente, se bem que não precisaria, já que cativava a gente sem nenhum esforço, do mesmo jeito que fazia com qualquer um. Boa gente, entende?

Fiquei sabendo a pouco que um dos meus outros queridissimos professores só conseguia dizer no velório “O mais amado!” .

“Torna-te eternamente responsável por aquilo que cativas”
a gente acaba usando demais essa frase, e de repente percebe que ela guarda uma dolorosa e bonita verdade. ainda mais quando o cara sai por aí, cativando o mundo inteiro…

É isso, fica com a gente essa coisa toda que nos deu, e que a gente ainda não entende bem. Uma vontade muito esquisita de ouvir Capital. E eu tenho certeza que pode ficar tranquilo, não vai faltar gente para olhar sempre pelas meninas. Um abraço, querdo!