Tem um mosquito se debatendo contra a parede no meu quarto. Não o vejo, mas escuto. Tem um mosquito enlouquecido nalgum lugar do meu quarto lutando para atravessar a parede; de quanto tempo precisa um mosquito para entender que nem seu ritmo frenético e ininterrupto de asas que batem, poderão, um dia, atravessar as camadas de tijolo, cimento e tinta?

Tem um rapaz se debatendo contra o colchão ao lado da parede onde se debate o mosquito. Não o vejo, mas escuto. Tem um rapaz enlouquecido molhando a cama de suor, um suor que soa mais como lágrimas que o corpo chora e encharca, sem tristeza, mas aflição. Precisaria o rapaz de quantas madrugadas para perceber que nem um mar desse suor poderia fazê-lo atravessar – ou afogar-se – essas camadas de sorrisos, olhos e tinta?

Tem um remédio dentro da gaveta. A gaveta fica entre outras duas gavetas, encaixada numa mesinha de cabeceira ao lado da cama onde se debate o garoto que fica ao lado da parede onde se debate o mosquito. Dentro da gaveta nada se debate, mas lateja. Dentro da gaveta um tarja preta latejante, um preto que ilumina em sua infinita e aconchegante escuridão. Entre o rapaz, o mosquito e o remédio, só receio, ninguém se vê, só se sabem por audição e por um respeito implícito em suas relações.

Talvez o remédio matasse o mosquito, talvez o remédio matasse o rapaz, talvez o mosquito matasse a si mesmo ou talvez ninguém ficasse em paz. Talvez a parede, ou todas as paredes, esmagassem todos juntos, ou um por um na ordem decrescente, mas atravessar não poderiam jamais.

O chinelo sim, o chinelo talvez matasse o mosquito.

Marchinha de Carnaval

fevereiro 19, 2010

Esperei na fila do bonde por tanto tempo que já começava a me esquecer seu destino e meus motivos. Os amigos já estão todos em Santa Tereza. Eu, aqui embaixo, bebo cerveja, mas bebo feito um remédio, se fosse mais novo, ou mais sozinho, tapava o nariz e engolia tudo num fôlego só.

Faz tanto sol, mas só me incomoda quando comentam. Se nevasse eu entenderia a surpresa e as reclamações dessa gente suada. Lá vem a poesia:

Queria ser planta

A sede é tanta

Água pela boca

Não adianta

Ou tarado

E guardar todas as gotas de suor

Que escorrem aos litros

Do nosso pecado

Num lugar secreto

E gelado

Queria mesmo era ser planta

Essa sede é tanta

Água pela boca Nunca adianta

Queria ser planta

E beber água pelo pé.

O bonde chegou, mas eu não estava mais lá. Fui a um bar.

O amigo

fevereiro 9, 2010

Veio hoje a minha casa um amigo. Uma amizade que começou há tantos anos que não sabemos muito bem porque, e da mesma forma não sabemos exatamente o motivo pelo qual nos esforçamos tanto para mantê-la respirando. Digo isso porque em algum ponto das nossas gigantescas vidas curtas, nossos caminhos, que nunca foram lá muito trançados, se distanciaram de maneira drástica. Sem rodeios eu diria: sou o que ele despreza e ele é o que eu luto contra. Mas sem rodeios o que seria do conteúdo? Disse para ela (outra pessoa) que o que importa é o resto e não o todo, acho que ela não concordou, mas já que eu sempre vejo um pouco de razão em tudo que ela fala, conto com a possibilidade de receber um privilégio parecido.

            Voltando ao amigo. Combinamos que ele chegaria por volta das oito horas da noite. Em comum temos o fato de que acordamos para lá da “hora do almoço”, portanto esse horário corresponderia a um lanche da tarde, e não a um jantar como se poderia imaginar. Pontualmente às oito horas ele me gritava do portão e meu cachorro já anunciava com latidos desconfiados sua chegada. Sua pontualidade, que não era costumeira, me pegou de surpresa, corri para o quarto e vesti uma camisa qualquer, agora penso que não me custaria mais de alguns segundos escolher uma camisa mais bonita. Penso também que já poderia ter trocado por uma outra, mais fresca e mais confortável, mas talvez só possa faze-lo depois do ponto final. Pronto.

            Voltando ao amigo. Depois dos comprimentos e da água que se deve oferecer a qualquer visita, sentamo-nos na varanda. Os primeiros assuntos devem ser sempre superficiais, devem ser uma preparação para o inesperado, para o que está por vir, devem percorrer coisas como a minha saúde fraca, a viajem que ele logo fará de volta para São Paulo, até que de repente uma palavra ou uma virgula qualquer nos faz mergulhar nas profundezas um do outro, ou, no nosso caso, cada um na própria, e assim o fizemos. Por conta de um céu repleto de estrelas e sem uma nuvem sequer, decidimos pegar, no segundo andar, o telescópio. Observar as estrelas e o que supúnhamos serem planetas, fez surgir um assunto no mínimo previsível, criaturas extraterrestres. Ele acredita e eu não. Depois de me contar alguns casos de comprovações de vida fora da terra, que eu julguei bastante questionáveis, decidi contar a ele algo que, até então, não havia tido coragem de contar para mais ninguém: minha antiga fixação pelo Pé Grande. Eu andava triste na época, por qualquer motivo que, se não valia a pena ficar triste por ele, certamente não vale a pena contar, mas por conta dessa fragilidade estava aceitando com um carinho especial qualquer mistério que me ocupasse o pensamento. Foi quando, pela força invencível do acaso, comecei a assistir um documentário sobre o Pé Grande, chamava-se Sasquatch. Os vídeos e o depoimento da Dra. Jane Goodall me convenceram; passei as semanas que se seguiram lendo tudo que podia sobre o monstro e procurando mais evidencias, juntando os pontos em comum nas histórias, olhando nos mapas os lugares onde ele havia sido flagrado por alguém. Com o tempo a tristeza acabou por escorrer toda em suor, então me dei conta de que, a não ser que estivesse em um avião que caísse numa floresta inabitada ao norte do Canadá, não fazia o menor sentido me preocupar com isso.

            Voltando ao amigo. Comemos pastel enquanto discutíamos Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister e se a fé em Deus pode ser usada como argumento em uma discussão teórica. Ele acredita e eu não. Ficamos ali, sentados à mesa, durante algumas horas, encharcados de profundezas e, vez ou outra nos secando com superficialidades só para voltarmos ao mergulho e ir mais fundo. Quando percebemos já era tarde, ele precisava ir e foi.

            Voltando a amizade. Percebi, não antes que o sangue que ele havia esquentado esfriasse, o motivo pelo qual não deixamos que nossos princípios sufoquem nossa amizade: porque somos espelho um do outro, meu braço direito é o esquerdo dele. Eu acredito e ele não.

    

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