Fazia tempo que já lia poesia

Mas nunca tola em se arriscar a ter amor

E a menina que fingia que sorria

Achava tudo, tudo, tudo um horror

.

Se fosse fácil eu acho bem que ela fugia

E ia logo se casar com algum doutor

Mas no nordeste sem sertão que ela vivia

Seca não tinha, mas tinha dor

.

Ainda jovem desistiu de ter coragem

Fez do medo, logo cedo, um bom amigo

E aprendeu como usar a maquilagem

Para esquivar qualquer sinal de algum perigo

.

Os meninos que a menina conheceu

Achavam charme os mistérios da menina

Que não dançava nem quando tocava Alceu

E que nenhum sol fez menos albina

.

Mas com o tempo e os invernos que passavam

O sabor que tem a vida azedava

E enquanto todos se afastavam

Ela andava

.

Acostumou a conversar com a solidão

Assim entendeu quase tudo sobre a vida

E se a seca era problema no sertão

Aqui a seca era querida.

Adeus, mas como?

agosto 18, 2010

Eu acho bastante possível que as pessoas olhem para mim hoje e enxerguem apenas um monte de fumaça. É assim que eu me sinto, é isso que meu cinzeiro me diz, é esse o cheiro que eu sinto na minha blusa preta da Hering, gola V, com furos debaixo dos braços.

Eu acho mesmo bastante compreensível que ela e todos eles queiram evitar um monte de fumaça resmungão.

Mas veja que surpresa, eu olhei para frente, e lá longe vi a mim mesmo. Rodeado de gente humana. Cheguei perto pra ouvir o que eu mesmo dizia, mas não entendia nada, meu vocabulário não era suficiente. Ele, que era eu, se vestia bem e sorria. E por qual motivo essa visão não me assombrou?

Eu e meu corpo já não somos os companheiros de outrora. Enquanto ele, que era eu, estava sentado na sala da universidade, eu, que era ele, pensava em algum “mudo e invisível amor”. Enquanto ele enviava currículos e aprimorava habilidades, eu me aprimorava em ser um bom paquerador de mulheres, um bom “amigo de copo”. Enquanto ele corria na praia, eu comia chocolate debaixo do cobertor, e engordava.

Eu acho que me orgulho dele, mas depois de tantos anos sinto que não temos mais assunto nenhum.

Vai corpo, vive a tua vida sem minha alegria, que eu tento viver a minha sem seu dinheiro. Mas te aviso já, não se abuse em ser feliz sem mim, te busco e dou-lhe uma surra.

Projeto Antenor – www.twitter.com/projetoantenor e www.projetoantenor.wordpress.com

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