Até que um dia
setembro 27, 2010
Meus pais tinham um grupo de oração. Eu ia com eles até completar uns seis anos, ou mais. Durante as preces e rezas ele ficava ali no canto. No fim meu pai pegava e tocava algumas músicas, todas com os mesmos três acordes que me soavam construções harmônicas perfeitas. Todos cantavam, eu acordava nessa hora.
Quando não havia ninguém por perto, eu pegava para batucar, e batucava minhas melodias pouco sonoras e bastante emocionadas. Até que um dia de tanto batucar eu quebrei o violão.
A menina mal me conhecia, fazia parte de um lugar que eu freqüentava sem me lembrar o motivo. Enquanto ela passava e distribuía um sorriso falso que só enganava a ela e aos meninos mais tímidos, eu ficava no canto.
Um dia, numa curva maliciosa com aqueles que andam distraídos, topamos um com o outro. Ela elogiou minha barba, fingiu gostar de umas poesias que eu levava guardadas na mochila para enrolar menina boba e ficou sorrindo. Eu dormia. Algum tempo passou, ela disse, falou, contou, tagarelou “maporção” de coisas. Aí, creio eu que de forma despropositada, ela inventou de parar de sorrir. Eu acordei nessa hora. Cantei algumas canções e nada, nenhum sorrisinho falso. Até que um dia de tanto batucar eu quebrei a menina.
Sobre meus irmãos, a distância e a saudade
setembro 5, 2010
São três, e esse talvez possa parecer um número pequeno, mas dentro de um quarto, três se multiplica, se expande, se transforma em inumeráveis mundos possíveis.
Não foi correto, mas com o tempo e a convivência, era mesmo inevitável que eu, dono de um mundo tão pequeno e limitado, fosse me apropriando um pouco de cada um desses mundos. Fui ladrão das ideias e das formas matematicamente perfeitas que meus irmãos inventaram para viver.
Os três, e cada um individualmente, me ensinaram mais da metade do pouco que sei. E ao falar deles sinto a leveza de saber que tudo só pode soar como exagero, mas sem ser exagerado, e mesmo o exagero parece moderado.
Ninguém nunca vai conhece-los como eu, disso sinto um orgulho indescritível. Sinto-me ora pai, ora filho, e tantas vezes colecionador das suas manias.
Antes de começar o texto pensei em descrever alguns casos que vivemos dentro do quarto apertado no apartamento, onde se arranjavam dois beliches de metal, no canto, formando um L. Mas hoje me permito ser egoísta com as histórias, que não tem nada de secretas, mas que em segredo ganham vida.
E aí? Aí que num certo momento da vida o quarto aperta demais, fica pequeno pra tantos mundos. Aos poucos o mundo de cada um ganha chão, ganha outros corações, e foge pra longe. Cada um para o seu próprio quarto, com a sua própria cama, onde ninguém dorme em cima, nem do lado… uma imensidão de espaços vazios, mas mesmo assim tudo parece mais apertado agora. É assim que é a vida, não me oponho ao movimento natural das coisas. A maior parte do tempo, juro, me alegro. Acontece só que, vez ou outra, eu percebo que longe deles eu não passo de 25% de um todo.
E a vontade que me dá é só de ligar pra cada um deles, e dizer: “Tu sabe que é nós, né?”