A minha pomba
dezembro 27, 2010
O ritual é simples. Eu chego por volta das nove e antes de tirar a mochila eu arregaço as janelas. A casa começa a fazer parte do ciclo do vento, do circuito dos ares. Um banho, um escovar os dentes, um vestir o short, e depois paro, sentado no chão, encostado na cama.
Hoje, por outro lado, terei um azar. Um revés por permitir que o ap se integre com o mundo através da janela. Hoje vai entrar pela janela uma pomba. Eu não vou saber o que fazer e vou tentar colocar ela pra fora de algum jeito.
Estaremos os dois ali, morrendo de medo um do outro, só porque ela não me entende e eu não posso entendê-la. Nós queremos a mesma coisa. Ela quer ir, eu quero deixá-la ir.
Mas ela não vai conseguir achar o caminho, não conseguirá sequer perceber que o trajeto que a trouxe para dentro é o mesmo que vai libertá-la. Eu, se tentar ajudar, não saberei ter delicadeza e acabarei fazendo com que a coitada se desespere num bater de asas descontrolado.
A coisa caminha mal, é perceptível que a cada tentativa nós nos afastamos mais um do outro.
“Pomba,
que faz parte do mundo
parte do mundo que eu quis deixar entrar
que o acaso disfarçado de vento
achou que seria belo o nosso encontro
mas nós na inocência
recalcados com surpresas
de sensibilidade prejudicada
deixamos o pior acontecer.”
O que vai acontecer no fim da história vai ser terrível. Eu vou ter uma ideia péssima, mas com a melhor das intenções, como toda ideia péssima costuma ser. Eu vou até a cozinha e aí vou pegar a vassoura para ver se assim consigo empurrá-la.
Na primeira tentativa ela escorrega. Na segunda escorrego eu. Na terceira, com os braços já cansados, eu perco o controle da vassoura e a esmago. Ela ainda vai respirar e tentar se mover por alguns minutos. Mas já estará feito.
Hoje eu não vou conseguir dormir e farei um pequeno artesanato com as penas dela.